Era uma vez um menino que
nasceu ateu e foi ateu até os sete anos de idade, mais ou menos, quando lhe
disseram que deus existe e ele acreditou. Sua família era de católicos e ele se
tornou igualmente católico. Sonhou em matar seu pai com uma machadinha e sentiu
culpa. Depois de uma adolescência confusa e angustiante, o menino teve uma
epifania e se converteu a Jesus. Foi salvo ainda na igreja católica, mas
rapidamente bandeou para o protestantismo, onde a fé lhe fazia mais sentido.
Rapidamente se uniu a um grupo fundamentalista cristão protestante e passou a
ter um sonho pouco ambicioso: converter o mundo inteiro à sua religião. Deu o
melhor de si por quase cinco anos, viajou a América do Sul e do Norte pregando
o evangelho, convertendo almas, salvando incrédulos, alimentando
espiritualmente os crentes. Abandonou seus amigos do mundo. Em sua cidade,
passou a incomodar vizinhos no domingo à tarde, batendo-lhes à porta, como
fazem os mórmons e os testemunhas de jeová, além de outras religiões genéricas
desta técnica.
O que faz um judeu ortodoxo
cuspir em meninas judias, mas não ortodoxas, que andam na rua com roupas
indecentes, mostrando partes do corpo? O que faz um muçulmano radical cortar o
clitóris da sua filha criança? O que faz um fundamentalista cristão explodir uma
bomba numa clínica de aborto americana, matando enfermeiras? O menino sabe.
Todos são fundamentalistas, de uma forma ou de outra. Mas, que fundamento é
este?
Uns acadêmicos da universidade
de Chicago ficaram encafifados com os atentados terroristas de 11/9 nos EUA e
desenvolveram um projeto para tentar entender, cientificamente, o
fundamentalismo. O menino aprendeu com eles que o termo fundamentalismo vem do
fim do século XIX e surgiu originalmente nos Estados Unidos, onde mais? Segundo
os expertos, o termo se referia originalmente a um grupo de cristãos americanos
que passaram por maus bocados no final do anos oitocentos e começo dos
novecentos. Dois ‘cientistas’ europeus ousaram colocar o mundo deles de ponta
cabeça. Freud veio com uma conversa de inconsciente e sexo, muito sexo,
inclusive nas crianças, meu deus, nas crianças! Darwin disse que talvez a
humanidade não tenha sido criada por deus do jeito que está na bíblia. Os
católicos nunca se preocuparam muito com a ciência: punham os hereges na fogueira.
Os protestantes, não. Eram supostamente racionais. Mas, a ciência havia ido
longe demais.
‘Voltemos aos fundamentos!’,
clamaram. Quais fundamentos? Basicamente a fé na verdade revelada por deus na
bíblia. Após milhares de anos de entreveros com a humanidade – parte pequena
dela diga-se de passagem, no Oriente Médio e na Europa – deus decidiu publicar,
assim como os acadêmicos hoje em dia. O texto escrito, compilado na bíblia, para
os fundamentalistas, deveria ser interpretado literalmente. Deus, para eles,
não fala por símbolos, só sinais, unívocos.
O menino gostou desta ideia, e
o seu mundo passou a fazer muito sentido. Deus criou o homem e a mulher, eles
pecaram, merecem morrer, mas cristo morreu em seu lugar. Bastaria crer na obra
redentora de cristo para ser salvo. O mundo ficou simples e as ditas perguntas
existenciais, respondidas: de onde viemos? Fomos criados por deus à sua imagem
e semelhança há mais ou menos seis mil anos, dos quais Matusalém, sozinho,
viveu um sexto. Para onde vamos? Para o céu, os que crerem, para o inferno os
que não. Se tivermos sorte estaremos vivos quando Jesus voltar para por ordem
na casa, e seremos por ele arrebatados para o céu físico (não confundir com o
paraíso). Por que estamos aqui? Para cumprir o plano de deus de levar o máximo
de pessoas para o céu. O menino gostou desta história e a comprou para si. O
menino foi feliz assim por quase seis anos durante a sua graduação acadêmica,
quando não frequentou nenhuma festa nem nenhuma menina, não bebeu, não fumou,
não foi ao cinema, não ouviu música, não leu livros senão os da igreja.
Mas, o menino teve que virar
adulto, e por esta deus não esperava. Como era inteligente – estudou na USP, na
UNICAMP e em Harvard – viu paradigmas e revoluções científicas. Arrumou emprego
e tralha e tal. Basicamente tinha que ganhar o seu próprio dinheiro e manter
relacionamentos duradouros, se não seria um menino louco e ninguém gosta de ser
chamado de louco. E como menino-adulto se defrontou com Freud que escreveu um
texto interessante, a Interpretação dos
Sonhos onde o menino descobriu, para seu enorme gozo, que o sonho que teve
quando criança, que matava seu pai, seu querido pai, com uma machadinha não
deveria ser motivo de culpa, porque todo bom menino sonha a mesma coisa, desde
Sófocles. Também leu Joseph Campbell e o seu Poder do Mito, a partir do qual o menino reviu suas crenças,
reconheceu que o deus dele era apenas um entre milhões de deuses que seus
irmãos humanos haviam criado, e que só existem neste planeta da via láctea, até
onde se sabe. Aprendeu que não há fundamentos, senão aquele dentro de si e que
deus escreve torto por linhas retas, se bem que no original hebraico do velho
testamento ele escrevia da direita para a esquerda, e que no novo testamento,
tradução barata para o grego do aramaico, da esquerda para a direita. (deus
publicado já tinha problemas com a esquerda e a direita.)
Aos trinta anos, o menino
deixou de acreditar neste deus, bebendo vinho e espumante, a beira do Sena em
Paris, com tudo pago por seu próprio esforço, com roteiro de viagem definido
por si mesmo, sem ter que dobrar os joelhos.
Em Dostoievsky e o Parricídio Freud acertou na mosca ao listar as duas
esferas na qual a relação pai vs. filho são um fator decisivo: na atitude em
relação ao Estado e na crença em Deus. O menino que havia matado o pai, agora
matou deus com duas garrafas vazias e um coração cheio. Restava matar o Estado.
Como o menino era filho da classe média com peso na consciência, seus pais o
colocaram numa escola de esquerda... comunista, vai. Ele queria justiça na
Terra. Até deus naquela época queria libertação. E a libertação viria pelas
mãos de expertos marxistas, pelo fim da exploração da mais valia, pela
destruição da propriedade burguesa, pela ditadura do proletariado. O menino só
não entendia direito o fim do comunismo proposto por Marx: após um breve
período de ditadura dos trabalhadores, o estado teria que ser destruído,
desfeito, e os seres humanos, livres, e tudo seria em comum, de cada um conforme
sua habilidade, para cada um conforme sua necessidade. O bom e velho
anarquismo! O menino cresceu na segunda metade do século XX e viu o estado
barbarizar, à direita, à esquerda e ao centro. Ainda hoje, no século XXI, o
menino ainda tem que ser tratado como um retardado pelo estado: não pode fumar sob
o coberto, não pode dar bebida para as crianças – meu deus, as crianças! – não
pode levar xampu com mais de 200ml no avião, tem que pagar impostos, tem que
votar, tem que torcer pelo país na copa, e se tiver guerra vai ter que lutar! A
princípio, o menino ficou com raiva, mas depois se conformou: quer acabar com o
estado não por rancor, porque está tudo errado, mas porque morre de curiosidade
de saber com quais habilidade poderia contribuir para a humanidade, e quais as
necessidades dele que caberia a ela satisfazer. Como seria um mundo sem
passaporte, como seria entrar no banheiro das mulheres, como seria morar onde
quisesse no mundo. Não tem fé no anarquismo, como tinha fé em deus e no
comunismo. É anarquista por pura curiosidade.
O menino também leu Mário
Quintana, na Porta Giratória: “Cuidado! Se alguém tem alguma crença – por
absurda que for – nunca discutas com ele... Dize-me, com a mão no coração: -
que lhe darias em troca? Nunca se deve tirar o brinquedo de uma criança”. O
menino ri quando ouve de cientistas, tipo aquele que teve um delírio com deus, discípulo
de Comte, que a ciência veio para resolver os problemas da humanidade, com a
sua razão e o seu método. A academia hoje se aproxima da igreja católica do fim
da idade média, (i) com paradigmas substituindo dogmas. Quem quer revoluções na
ciência? Só o Kuhn. Revolução na ciência só se tiver uma verba extra para os
pesquisadores; se não, deixa tudo como está, pelo menos enquanto o cientista
estiver vivo e suas teses, se tiver mais que uma, o que é raro, seguirem sendo
corroboradas. Por trás da ciência hoje, o menino vê uma (ii) sociedade secreta,
enclausurada em si mesma, aberta e acessível apenas aos iniciados,
criptografada para os leigos. Também vê a (iii) autoridade. Quem citar em seu texto?
Se um cientista respeitado, uma autoridade, o argumento se mantém. Nada de
escrever na primeira pessoa, nada de subjetivismo. Toda religião só se sustenta
a partir de uma postura de submissão. Neste sentido, os acadêmicos somos todos
islâmicos, já que islã significa ‘submissão’. Submissão ao quê? Submissão à
autoridade dos que detêm os atuais paradigmas. Submissão ao método. Submissão,
em especial, aos desígnios das publicações especializadas.
Sem deus, o estado e a
ciência, o menino se pergunta o que daria à humanidade em troca? E o menino se
lembra da música que compôs e canta no ensaio da sua banda na sua garagem de
menino, se lembra de quanto tempo ficou diante do autorretrato de Van Gogh em
Amsterdam (lá pode chapar e ir ao museu), se lembra da dor nas pernas de tanto
dançar ao som de um bom vinil, se lembra da projeção da caverna moderna no
cinema mais próximo de sua casa, se lembra das horas de teatro toda semana, na
sala de aula, ator que virou ao professar, se lembra da fotografia do casal se
beijando com o fim da guerra, se lembra acima de tudo da literatura, de Mann,
Joyce, Dostoievsky, Rosa, Pessoa, Assis. Fodam-se deus, o estado e a ciência,
enquanto o menino estiver a fazer arte.
Rafael Souza
Jan/2012
